Na recusa e seletividade alimentar não há atalhos, não há caminhos fáceis, nem receitas mágicas.
Não basta ir apresentando alimentos indiscriminadamente à criança. Não basta envolvê-la em atividades sensoriais descontextualizadas, como mexer na massa crua dos bolos durante a sua confeção. Não basta “lavar daí as suas mãos” e delegar o problema para o terapeuta, esperando que em poucas sessões tudo se resolva.
“Comer” é um ato de enorme complexidade — biológica/orgânica, motora, sensorial, emocional e relacional. E, por isso, uma dificuldade alimentar raramente nasce de uma única causa. Pelo contrário, é fruto de um emaranhado de fatores que se entrelaçam: experiências alimentares precoces, padrões de interação familiar, autorregulação sensorial ou coordenação motora oral.
A literatura científica é clara: embora a intervenção terapêutica seja fundamental, o progresso depende profundamente do envolvimento da família, da consistência das rotinas e da forma como os cuidadores respondem ao comportamento alimentar da criança (Dovey et al., 2008; Chatoor, 2012).
“Comer” começa em casa — na segurança do seio familiar, no modelo que os adultos oferecem à mesa, e na construção de uma relação prazerosa e curiosa com os alimentos, em toda a sua diversidade de cores, texturas e aromas.
É aí que se lançam as bases do comportamento alimentar, e é aí também que muitas dificuldades podem ser suavizadas ou, pelo contrário, reforçadas.
Por isso, quando alguém vos disser que uma recusa ou seletividade alimentar se resolve com A + B em três ou quatro consultas, desconfiem: ou não se trata de um verdadeiro quadro de seletividade alimentar, ou então, venderam-vos a ilusão de uma cura rápida para algo que exige tempo, compreensão e envolvimento familiar.
O caminho é lento, sim — mas é também profundamente transformador porque quando a família se envolve, se informa e se compromete, o “comer” deixa de ser uma luta… e volta a ser um ato de vínculo, prazer e descoberta.
Soraia Vicente
Terapeuta da Fala