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Sáb: 9h - 12h30m

“Toma lá a tua pepê!”

    Penso que existem poucas coisas tão aborrecidas quanto fazer uma viagem de comboio sozinha. É um não saber onde pousar o olhar, não saber o que fazer às mãos e, inconscientemente e contra os princípios da boa educação que nos regem, damos por nós à escuta de conversas que nos são alheias.

    Foi numa dessas viagens que me detive na observação de um momento que considero único, e no qual todos nós já fomos, de uma forma ou de outra, intervenientes – o diálogo entre Mãe e Filho.

    Uma mãe que, de forma ingénua, perguntava ao seu filho se queria a sua “pepê”. Confesso que, acabadinha de sair da universidade, ao ouvir a pergunta toda eu me contorci por dentro. Em milésimos de segundos afluiu à minha cabeça, nada mais nada menos, que uma avalanche de teoria que teimava em querer saltar-me da boca na expetativa que aquela mãe pudesse compreender o infortúnio da utilização daquela (não posso chamar-lhe) palavra no discurso que tinha acabado de dirigir ao seu filho.

    No entanto, as crianças são fantásticas, e quanto a isto não resta a menor dúvida. Do alto da sua espontaneidade e simplicidade, conseguem sempre os ingredientes mágicos para nos surpreenderem… É que, antes mesmo que eu tivesse tempo para acabar de processar mentalmente o que se tinha acabado de passar, já a criança se dirigia à mãe com uma afirmação pouco inteligível, mas ainda assim percetível: “Mamã, é chupeta, pepê é para os bebés!”. Sorri. Fosse eu esta mãe, e não poderia estar mais orgulhosa do meu filho.

    Para mim, é esta a fase mágica do processo comunicativo! Como se ouve por aí, o que importa na vida não é o destino, mas sim a jornada e, afinal, a primeira palavra de uma criança alberga toda uma jornada que deve ser feita de respostas contingentes e de oportunidades comunicativas diversificadas, mas sobretudo de muito carinho, amor e afeto.

Soraia Vicente

Terapeuta da Fala