Diariamente, em conversas de café, em diálogo com diferentes pais, ou em conversas com amigos e conhecidos assisto, enquanto profissional, àquilo a que chamaria “o cliché da primeira palavra”. Tendencialmente “acena-se” a bandeirola da primeira palavra: “Olha que ele disse papá!”, “Ele já disse bola!”, “A primeira palavra dele foi “dá”!
Consigo compreender a euforia em torno desta pequena grande conquista mas, ao mesmo tempo, é com grande pena que vejo a desvalorização de outras etapas que a antecedem e nas quais, para mim, reside a grande magia do processo comunicativo, do tornar-se “um ser social”, em conexão com o mundo que nos rodeia.
O bebé nasce e chora. A partir daí já está a comunicar com o mundo, dando sinal da sua presença. Nos primeiros tempos o bebé utiliza sobretudo o choro como forma de comunicar à mãe as suas necessidades básicas. O bebé chora – inicialmente de forma involuntária – e a mãe vai ao seu encontro, dando resposta àquilo que o bebé precisa nesse momento. Esta resposta materna de carácter contingente faz com que o bebé comece a compreender a génese do processo comunicativo “eu choro – a minha mãe aparece!”. Isto é comunicação!
Segundo alguns autores, nos primeiros 2 meses, o sorriso do bebé também é reflexo. Mas quem de nós consegue, porventura, não responder ao sorriso de um bebé de 2 meses? O bebé começa a compreender que o seu sorriso despoleta uma ação/uma resposta nos pares com quem se encontra envolvido e, tudo a correr bem, o sorriso do bebé torna-se voluntário por volta do seu terceiro mês. Isto é comunicação!
E já conseguem adivinhar o que acontece com as vocalizações e os palreios? Seguem exatamente o mesmo processo. O bebé começa a explorar o seu sistema vocal, soltando inocentes sonoridades de vogais. O impacto destas vocalizações nos seus pares é imediato e, novamente, contingente, recebendo de volta sorrisos, outras vocalizações e frases em tom melódico acompanhadas de expressões faciais carregadas de afeto. Tudo isto funciona como um reforço positivo e constitui a ponta do iceberg daquilo a que se chama maternalês, a linguagem do afeto materno, que tantos estudos demonstram como sendo um importante promotor do desenvolvimento infantil.
No fundo, é através da intensidade da resposta do outro aos seus atos comunicativos reflexos que o bebé é encorajado a comunicar, cada vez mais, e de formas cada vez mais sofisticadas.
Para mim, é esta a fase mágica do processo comunicativo! Como se ouve por aí, o que importa na vida não é o destino, mas sim a jornada e, afinal, a primeira palavra de uma criança alberga toda uma jornada que deve ser feita de respostas contingentes e de oportunidades comunicativas diversificadas, mas sobretudo de muito carinho, amor e afeto.
Soraia Vicente
Terapeuta da Fala